{"id":14,"date":"2021-09-22T17:12:00","date_gmt":"2021-09-22T20:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ppt.fiocruz.br\/fioleish\/?p=14"},"modified":"2021-09-22T17:12:00","modified_gmt":"2021-09-22T20:12:00","slug":"reservatorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioleish\/reservatorio\/","title":{"rendered":"Reservat\u00f3rio"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Reservat\u00f3rios de <em>Leishmania <\/em>spp. nas Am\u00e9ricas<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Autores: Andr\u00e9 Luiz Rodrigues Roque e Ana Maria Jansen<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nas Am\u00e9ricas, esp\u00e9cies do g\u00eanero <em>Leishmania<\/em> compreendem parasitas multi-hospedeiros de car\u00e1ter zoon\u00f3tico que s\u00e3o mantidos por uma grande diversidade de esp\u00e9cies de mam\u00edferos na natureza. Ainda que a infec\u00e7\u00e3o por <em>Leishmania<\/em> spp. em mam\u00edferos silvestres venha sendo estudada desde o in\u00edcio do s\u00e9culo passado, a transmiss\u00e3o destes parasitos na natureza ainda representa um grande quebra-cabe\u00e7as. Entre os numerosos conceitos propostos do que \u00e9 \u201creservat\u00f3rio\u201d, entendemos que este atributo n\u00e3o necessariamente se restringe apenas a uma esp\u00e9cie, mas sim a um conjunto de esp\u00e9cies respons\u00e1veis por manter um parasito na natureza, constituindo assim um sistema ao qual chamamos de \u201csistema reservat\u00f3rio\u201d (Ashford, 1997). Este sistema reservat\u00f3rio \u00e9 din\u00e2mico e pode incluir esp\u00e9cies distintas nos diferentes recortes tempo-espaciais. Importante enfatizar que patogenicidade, virul\u00eancia, ou resili\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o atributos considerados na defini\u00e7\u00e3o de reservat\u00f3rios. Assim sendo, estudos sobre os ciclos de transmiss\u00e3o silvestre de <em>Leishmania<\/em> spp. obrigatoriamente devem ser conduzidos sob um foco multidisciplinar , uma vez que: (i) \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de <em>L. infantum<\/em>, as demais esp\u00e9cies de <em>Leishmania<\/em> s\u00e3o enzootias antigas que j\u00e1 inclu\u00edam&nbsp; numerosas esp\u00e9cies de mam\u00edferos no seu ciclo de transmiss\u00e3o por milh\u00f5es de anos antes da entrada de humanos nas Am\u00e9ricas; (ii) As diferentes esp\u00e9cies de <em>Leishmania<\/em> que circulam nas Am\u00e9ricas est\u00e3o dispersas em diferentes habitats e biomas, exibindo alta diversidade gen\u00e9tica, intra e interespec\u00edfica; (iii) esses parasitas continuam a ser mantidos e transmitidos na natureza apesar das geralmente baixas taxas de infec\u00e7\u00e3o relatadas em mam\u00edferos silvestres e flebotom\u00edneos; e (iv) existe uma enorme sobreposi\u00e7\u00e3o de \u00e1reas na circula\u00e7\u00e3o de diferentes esp\u00e9cies de <em>Leishmania<\/em> e, muito provavelmente, alguns hospedeiros mam\u00edferos s\u00e3o expostos a infec\u00e7\u00f5es mistas e\/ou m\u00faltiplas de <em>Leishmania <\/em>spp.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora dezenas de esp\u00e9cies de mam\u00edferos j\u00e1 tenham sido encontradas naturalmente infectadas por diferentes esp\u00e9cies de <em>Leishmania<\/em> e, portanto, possam ser considerados como hospedeiros destes parasitos, o \u201csistema reservat\u00f3rio\u201d \u00e9 constitu\u00eddo apenas por uma minoria destas. De fato, os diferentes m\u00e9todos diagn\u00f3sticos empregados, a capacidade de manter a infec\u00e7\u00e3o, os cen\u00e1rio ecol\u00f3gicos em que mam\u00edferos silvestres infectados foram detectados indicam que apenas uma minoria dessas esp\u00e9cies hospedeiras podem ser consideradas potenciais reservat\u00f3rios, ou seja, apresentam caracter\u00edsticas favor\u00e1veis \u00e0 infectividade do vetor. Para ser considerado um potencial reservat\u00f3rio (diferenciando-se daqueles que s\u00e3o hospedeiros), \u00e9 essencial que seja demonstrado a persist\u00eancia individual da infec\u00e7\u00e3o e\/ou infectividade ou seja, potencial para transmitir o parasita a vetores (demonstrado por xenodiagn\u00f3stico positivo e\/ou culturas de pele ou sangue positivas). Somente estudos locais, incluindo an\u00e1lises ecol\u00f3gicas e parasitol\u00f3gicas, podem confirmar uma esp\u00e9cie (ou esp\u00e9cies) como reservat\u00f3rios de <em>Leishmania<\/em> spp em um determinado ambiente (Roque and Jansen, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p>Nas Am\u00e9ricas, <em>Leishmania <\/em>spp. j\u00e1 foram encontradas infectando mam\u00edferos silvestres de 7 ordens: Didelphimorphia, Cingulata, Pilosa, Rodentia, Primata, Carnivora e Chiroptera. Didelphimorphia \u00e9 uma ordem aut\u00f3ctone de mam\u00edferos, e esp\u00e9cies do g\u00eanero <em>Didelphis<\/em> est\u00e3o entre as mais investigadas em estudos de campo devido \u00e0 sua grande abund\u00e2ncia em ambientes antropizados. De fato, <em>Didelphis<\/em> spp. s\u00e3o considerados mam\u00edferos sinantr\u00f3picos e indicativos de \u00e1reas perturbadas. Estudos a campo e experimentais apontam que pelo menos <em>D. marsupialis<\/em> e <em>D. albiventris<\/em> s\u00e3o potenciais reservat\u00f3rios de <em>L. infantum,<\/em> <em>L. braziliensis<\/em>, <em>L. amazonensis<\/em>, <em>L. guyanensis<\/em> e <em>L. panamensis<\/em>. Uma esp\u00e9cie de tatu, <em>Dasypus novemcinctus<\/em> (ordem Cingulata) \u00e9 o \u00fanico hospedeiro n\u00e3o humano do qual <em>L. naiffi<\/em> foi isolada e pode ser considerado um potencial reservat\u00f3rio dessa esp\u00e9cie de parasito. A ordem Pilosa inclui tamandu\u00e1s e pregui\u00e7as: <em>Tamandua tetradactyla<\/em> \u00e9 a \u00fanica esp\u00e9cie de tamandu\u00e1 encontrada naturalmente infectada por esp\u00e9cies de <em>Leishmania<\/em> (<em>L. amazonensis<\/em>, <em>L. guyanensis<\/em> e <em>L. infantum<\/em>). A esp\u00e9cie de pregui\u00e7a <em>Choloepus didactylus<\/em> \u00e9 um potencial reservat\u00f3rio de <em>L. guyanensis<\/em>, enquanto outras esp\u00e9cies de pregui\u00e7a s\u00e3o hospedeiras de diferentes esp\u00e9cies de <em>Leishmania<\/em>, especialmente aquelas mais relacionadas a <em>Endotrypanum<\/em> sp., como <em>L. colombiensis<\/em> e <em>L. equatorensis<\/em>. Roedores s\u00e3o inclu\u00eddos na ordem mais diversa e dispersa de mam\u00edferos nas Am\u00e9ricas e \u00e9 nesta ordem que s\u00e3o descritas infec\u00e7\u00f5es pela maior diversidade de esp\u00e9cies de <em>Leishmania<\/em>. Os roedores caviomorfos (subordem Hystricognathi) incluem esp\u00e9cies de <em>Proechimys<\/em> sp. e <em>Thrichomys<\/em> sp., j\u00e1 demonstrados como potenciais reservat\u00f3rios de diferentes esp\u00e9cies de <em>Leishmania<\/em>. Por outro lado, apesar dos in\u00fameros estudos que apontam que \u201croedores s\u00e3o reservat\u00f3rios de <em>L. braziliensis<\/em>, <em>L. amazonensis<\/em> e <em>L. mexicana<\/em>\u201d, apenas algumas esp\u00e9cies de roedores, especialmente aquelas da subordem Hystricognathi, podem atualmente ser consideradas seus potenciais reservat\u00f3rios. Especialmente considerando a diversidade de esp\u00e9cies de roedores, certamente tais generaliza\u00e7\u00f5es est\u00e3o longe de descrever a realidade. Em rela\u00e7\u00e3o aos primatas n\u00e3o humanos, os estudos de <em>Leishmania<\/em> s\u00e3o raros, e apenas algumas esp\u00e9cies at\u00e9 o momento foram investigadas, algumas encontradas infectadas por <em>L. amazonensis<\/em>, <em>L. shawi<\/em> e <em>L. infantum<\/em>, demonstrando que estes mam\u00edferos tamb\u00e9m est\u00e3o expostos ao ciclo de transmiss\u00e3o de <em>Leishmania<\/em> spp. na natureza. Na ordem Carnivora, c\u00e3es dom\u00e9sticos s\u00e3o importantes reservat\u00f3rios de <em>L. infantum, <\/em>sendo infectivos ao vetor e respons\u00e1veis pela manuten\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o em meios urbanos (Quinnell and Courtenay, 2009). J\u00e1 seu papel como reservat\u00f3rio das demais esp\u00e9cies de <em>Leishmania, <\/em>bem como o papel dos gatos dom\u00e9sticos como reservat\u00f3rios, ainda n\u00e3o est\u00e1 totalmente esclarecido.Can\u00eddeos selvagens s\u00e3o geralmente apontados como os reservat\u00f3rios silvestres de <em>L. infantum<\/em>. No entanto, das esp\u00e9cies de can\u00eddeos selvagens mais abundantes nas Am\u00e9ricas, apenas <em>Cerdocyon thous<\/em> (principalmente) e <em>Speothos venaticus<\/em> s\u00e3o considerados potenciais reservat\u00f3rios de <em>L. infantum<\/em>, enquanto a persist\u00eancia da infec\u00e7\u00e3o e\/ou potencial para infectar vetores nunca foi demonstrada para a raposa-do-campo <em>Pseudalopex vetulus<\/em>, por exemplo. Morcegos (ordem Chiroptera) s\u00e3o animais longevos e os \u00fanicos mam\u00edferos que voam, mas apenas recentemente passaram a ser investigados frente a infec\u00e7\u00f5es por <em>Leishmania<\/em> spp. Os poucos relatos apontam que sua import\u00e2ncia \u00e9 provavelmente subestimada, e <em>L. infantum<\/em>, <em>L. braziliensis<\/em>, <em>L. amazonensis<\/em> e <em>L. mexicana<\/em> s\u00e3o algumas esp\u00e9cies j\u00e1 encontradas infectando morcegos tanto de \u00e1reas silvestres, quanto urbanas.<\/p>\n\n\n\n<p>A magnitude do problema de sa\u00fade das leishmanioses e sua complexa epidemiologia apontam para a necessidade de se esclarecer todos os elos de sua rede de transmiss\u00e3o (numa abordagem de \u201cSa\u00fade \u00fanica\u201d), a fim de se implementar estrat\u00e9gias efetivas de controle (Shaw, 2007). Geralmente, as medidas de controle de <em>L. infantum<\/em> se concentram nos c\u00e3es, ignorando a possibilidade de que mam\u00edferos silvestres e\/ou sinantr\u00f3picos possam estar envolvidos no ciclo de transmiss\u00e3o, servindo como fonte de infec\u00e7\u00e3o para vetores em \u00e1reas peridomiciliares. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s esp\u00e9cies de <em>Leishmania<\/em> respons\u00e1veis pelas formas tegumentares da doen\u00e7a humana, tem sido proposto que n\u00e3o apenas um \u00fanico hospedeiro\/reservat\u00f3rio est\u00e1 envolvido na manuten\u00e7\u00e3o desses parasitos, mas provavelmente v\u00e1rias esp\u00e9cies-chave com alta compet\u00eancia de transmiss\u00e3o s\u00e3o as respons\u00e1veis pela manuten\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o destas esp\u00e9cies na natureza. Os fatores envolvidos na amplifica\u00e7\u00e3o de focos enzo\u00f3ticos (e consequente risco de infec\u00e7\u00f5es humanas) s\u00e3o temporais e regionalmente peculiares, e entender cada foco de transmiss\u00e3o \u00e9 fundamental para apoiar estrat\u00e9gias eficazes e sustent\u00e1veis para a vigil\u00e2ncia das Leishmanioses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong> <a href=\"https:\/\/iris.paho.org\/handle\/10665.2\/54129\">https:\/\/iris.paho.org\/handle\/10665.2\/54129<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reservat\u00f3rios de Leishmania spp. nas Am\u00e9ricas Autores: Andr\u00e9 Luiz Rodrigues Roque e Ana Maria Jansen Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz Nas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":8,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-14","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-areas-tematicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioleish\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioleish\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioleish\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioleish\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioleish\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioleish\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioleish\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioleish\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioleish\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioleish\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}