{"id":68,"date":"2021-05-03T12:20:00","date_gmt":"2021-05-03T15:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.schisto.fiocruz.br\/?p=68"},"modified":"2021-05-03T12:20:00","modified_gmt":"2021-05-03T15:20:00","slug":"hospedeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioschisto\/hospedeiro\/","title":{"rendered":"Hospedeiro"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">O g\u00eanero <em>Biomphalaria<\/em> \u2013 moluscos hospedeiros intermedi\u00e1rios<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Amanda Santos \u2013 estudante de biologia<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros pesquisadores que estudaram a evolu\u00e7\u00e3o do <em>Schistosoma<\/em> descobriram que, assim como outros parasitos tremat\u00f3deos, o verme passa por uma fase de transforma\u00e7\u00e3o dentro de um hospedeiro intermedi\u00e1rio, possivelmente um molusco. Foi Leiper, em 1914, o maior respons\u00e1vel por investigar, a n\u00edvel global, a rela\u00e7\u00e3o entre os esquistossomos e moluscos de \u00e1gua doce. Lutz em 1916 estudou sobre a parasitose em solo brasileiro. Nestes estudos observou a penetra\u00e7\u00e3o de mirac\u00eddios de <em>Schistosoma mansoni<\/em> em moluscos de \u00e1gua doce, concluiu ent\u00e3o que tinham como hospedeiro intermedi\u00e1rio caramujos do g\u00eanero <em>Biomphalaria<\/em>, na \u00e9poca <em>Planorbis.<\/em> &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O g\u00eanero <em>Biomphalaria<\/em> compreende moluscos gastr\u00f3podes que vivem em \u00e1gua doce. Estes t\u00eam import\u00e2ncia m\u00e9dica por algumas esp\u00e9cies serem hospedeiras intermedi\u00e1rias do <em>Schistosoma mansoni<\/em>. No Brasil ocorrem 11 esp\u00e9cies e 1 subesp\u00e9cie de <em>Biomphalaria<\/em>, sendo que tr\u00eas esp\u00e9cies s\u00e3o consideradas hospedeiras naturais, pois foram encontradas infectadas pelo parasito (<em>Biomphalaria glabrata, Biomphalaria straminea<\/em> e<em>Biomphalaria tenagophila<\/em>) e outras tr\u00eas s\u00e3o consideradas hospedeiras em potencial (<em>Biomphalaria peregrina, Biomphalaria amazonica e Biomphalaria cousini<\/em>), pois se infectaram em experimentos de laborat\u00f3rio. Sendo <em>B. glabrata<\/em> o principal transmissor da <em>S. mansoni<\/em> na regi\u00e3o neotropical.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes moluscos apresentam a concha com forma de disco em espiral plano, com lados aproximadamente paralelos com di\u00e2metro variando de 7 a 40 mm dependendo da esp\u00e9cie, e colora\u00e7\u00e3o castanha, sendo alguns mais claros e outros mais escuros de acordo com as condi\u00e7\u00f5es ambientais. Os orif\u00edcios genitais ficam do lado esquerdo do corpo e possuem tent\u00e1culos finos e alongados.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Vivem em \u00e1gua doce, em cole\u00e7\u00f5es naturais e artificiais como: lagos, lagoas, cisternas, p\u00e2ntanos, po\u00e7os, riachos, a\u00e7udes, \u00e1reas alagadas, canais de irriga\u00e7\u00e3o e de drenagem. O habitat preferencialmente \u00e9 de \u00e1guas rasas com riqueza de microflora, leito lodoso ou rochoso e com vegeta\u00e7\u00e3o, onde fazem a postura dos ovos. Ilumina\u00e7\u00e3o, temperatura m\u00e9dia de 22\u00b0 a 26\u00b0C, ph entre 6 e 8 e turbidez da \u00e1gua tamb\u00e9m s\u00e3o fatores essenciais para a sobreviv\u00eancia do molusco. Os caramujos do g\u00eanero <em>Biomphalaria<\/em> apresentam grande capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es adversas: s\u00e3o capazes de reduzir o metabolismo e entrar em estado de hiberna\u00e7\u00e3o caso ocorra falta de alimento ou diminui\u00e7\u00e3o ou aumento de temperatura, e em per\u00edodos de seca se enterram. Isso explica a capacidade de viver em diversos ambientes e a ampla distribui\u00e7\u00e3o por todo territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A alimenta\u00e7\u00e3o desses invertebrados depende do substrato. Com a r\u00e1dula (estrutura presente na cavidade bucal) eles raspam lodo (que cont\u00e9m mat\u00e9ria org\u00e2nica e sais minerais), limo (composto por algas, bact\u00e9rias e outros microrganismos), excremento de outros animais e folhas em decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os moluscos do g\u00eanero <em>Biomphalaria<\/em> s\u00e3o hermafroditas, o sistema genital compreende um \u00f3rg\u00e3o, chamado ovot\u00e9stis, produtor de c\u00e9lulas germinativas masculinas e femininas. T\u00eam alta capacidade proliferativa. Logo ap\u00f3s a oviposi\u00e7\u00e3o, a desova apresenta-se com a c\u00e1psula externa male\u00e1vel e com a subst\u00e2ncia albuminosa opaca. Ap\u00f3s alguns minutos, a c\u00e1psula torna-se mais r\u00edgida e a desova transparente. Em laborat\u00f3rio j\u00e1 foi observada produ\u00e7\u00e3o de desova ininterrupta por mais de um ano, al\u00e9m disso, t\u00eam r\u00e1pido desenvolvimento embrion\u00e1rio, n\u00e3o mais que oito dias, com a postura de 10, 50 ou mais ovos\/desova com uma taxa de sobreviv\u00eancia de 80%. Ap\u00f3s um m\u00eas da eclos\u00e3o, o molusco jovem consegue acasalar com produ\u00e7\u00e3o de prole. O tempo de vida m\u00e9dia dos caramujos \u00e9 aproximadamente um ano. Esta r\u00e1pida reprodu\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos fatores da sobreviv\u00eancia e perman\u00eancia das esp\u00e9cies do g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Moluscos do g\u00eanero <em>Biomphalaria<\/em> j\u00e1 foram relatados em 24 dos 26 estados brasileiros, al\u00e9m do Distrito Federal. S\u00f3 n\u00e3o foram registrados nos estados do Amap\u00e1 e Rond\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Biomphalaria glabrata<\/em> foi registrada em Alagoas, Bahia, Esp\u00edrito Santo, Goi\u00e1s, Maranh\u00e3o, Minas Gerias, Par\u00e1, Para\u00edba, Pernambuco, Piau\u00ed, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, S\u00e3o Paulo, Sergipe e DF (Figura 1A). Os adultos dessa esp\u00e9cie apresentam concha com cerca de 20 mm a 30 mm de di\u00e2metro com 6 giros arredondados que crescem lentamente em di\u00e2metro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Biomphalaria straminea<\/em> \u00e9 encontra no Acre, Alagoas, Amazonas, Bahia, Cear\u00e1, Esp\u00edrito Santo, Goi\u00e1s, Maranh\u00e3o, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Par\u00e1, Paran\u00e1, Para\u00edba, Pernambuco, Piau\u00ed, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Roraima, Santa Catarina, S\u00e3o Paulo, Sergipe e DF (Figura 1B). Os adultos t\u00eam concha de 16 mm de di\u00e2metro com 5 giros arredondados.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Biomphalaria tenagophila<\/em> foi registrada na Bahia, Goi\u00e1s, Minas Gerais, Paran\u00e1, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, S\u00e3o Paulo e DF (Figura 1C). Os adultos dessas esp\u00e9cies t\u00eam concha com cerca de 35 mm de di\u00e2metro com sete a oito giros..<\/p>\n\n\n\n<p><em>Schistosoma<\/em><em> mansoni<\/em> infecta o molusco na forma larvar chamada &nbsp;mirac\u00eddio. Os ovos presentes nas fezes humanas em contato com a \u00e1gua doce, , &nbsp;na temperatura ideal de 28\u00ba C e com ajuda da luminosidade e movimenta\u00e7\u00e3o do embri\u00e3o o ponto de menor resist\u00eancia do ovo rompe e libera o mirac\u00eddio. Esta larva apresenta forma cil\u00edndrica e mede cerca de 160-180 micr\u00f4metros de comprimento. O corpo \u00e9 formado por placas epid\u00e9rmicas ciliadas, na regi\u00e3o anterior e papila apical em forma de cone (terebratorium) que cont\u00e9m abertura de gl\u00e2ndulas (adesivas e de penetra\u00e7\u00e3o) e muitos receptores sensoriais. Possuem sistema de detec\u00e7\u00e3o de luz e quimiorreceptores localizados nas c\u00e9lulas nervosas que percebem subst\u00e2ncias que existem no muco do molusco hospedeiro intermedi\u00e1rio. Os mirac\u00eddios nadam utilizando os c\u00edlios presentes na epiderme. Como n\u00e3o t\u00eam sistema digestivo, n\u00e3o se alimentam no meio, dependendo unicamente das reservas energ\u00e9ticas (glicog\u00eanio). Quanto mais tempo nadando sem encontrar o caramujo hospedeiro, menor \u00e9 a chance de infect\u00e1-lo. Quando finalmente entram em contato a <em>Biomphalaria,<\/em> o mirac\u00eddio adere e penetra nas partes moles do tegumento, para isso usam as secre\u00e7\u00f5es do terebratorium e movimentos rotat\u00f3rios. Este processo dura entre tr\u00eas a quinze minutos. Dentro do caramujo, o mirac\u00eddio passa por mudan\u00e7as estruturais perto do ponto de &nbsp;penetra\u00e7\u00e3o, dando origem ao esporocisto prim\u00e1rio. Eles crescem e ficam no formato de saco alongado ou ovalado. Ap\u00f3s duas horas da penetra\u00e7\u00e3o perdem o revestimento epitelial ciliado e formam um novo tegumento sincicial, formado por mitoc\u00f4ndrias, ribossomos, ret\u00edculo endoplasm\u00e1tico, glicog\u00eanio e lip\u00eddeos. Ainda n\u00e3o t\u00eam sistema digestivo e a excre\u00e7\u00e3o e secre\u00e7\u00e3o s\u00e3o realizadas pelo tegumento.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do esporocisto prim\u00e1rio as c\u00e9lulas germinativas que antes eram difusas tornam-se mais proeminentes e a por\u00e7\u00e3o central do esporocisto diferencia-se em uma c\u00e2mara de matura\u00e7\u00e3o onde as c\u00e9lulas germinativas se reproduzem assexuadamente formando o esporocisto secund\u00e1rio. Em menos de uma semana o esporocisto secund\u00e1rio come\u00e7a a se formar por subdivis\u00f5es e diferencia\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas germinativas. Ap\u00f3s 5 a 6 dias o esporocisto prim\u00e1rio se transforma em esporocisto secund\u00e1rio e desloca para o hepatop\u00e2ncreas (gl\u00e2ndulas digestivas) e ovotestis do molusco. Nesta fase ocorrem mudan\u00e7as anat\u00f4micas. Ap\u00f3s 3 a 4 semanas de desenvolvimento a forma larval, cerc\u00e1ria, est\u00e1 completamente formada e pronta para ser eliminada ao meio externo. Um \u00fanico mirac\u00eddio pode gerar de 100 a 300 mil cerc\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>As cerc\u00e1rias saem pelo rompimento de ves\u00edculas que s\u00e3o formadas na epiderme do molusco hospedeiro. A sua libera\u00e7\u00e3o est\u00e1 relacionada com a luminosidade e temperatura, ocorrendo nas horas mais claras e quentes do dia, onde buscam o hospedeiro definitivo, o homem ou outro mam\u00edfero suscet\u00edvel que estejam em contato com a \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>CARVALHO, OS; COELHO, PMZ, LENZI, HL. Orgs<strong>. <em>Schistosoma mansoni<\/em> e esquistossomose: uma vis\u00e3o multidisciplinar<\/strong>. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>CARVALHO, OS; PASSOS, LKJ; MENDON\u00c7A, CLF; CARDOSO, PLM; CALDEIRA, RL. <strong>Moluscos Brasileiros de Import\u00e2ncia M\u00e9dica.<\/strong> 2. ed. Belo Horizonte, Fiocruz\/Centro de Pesquisas Ren\u00e9 Rachou, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>CANTINHA, RS. Influ\u00eancia da radia\u00e7\u00e3o gama de alta taxa de dose na sobreviv\u00eancia e na reprodu\u00e7\u00e3o de <em>Biomphalaria glabrata<\/em>. 2008. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado). Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Tecnologias Energ\u00e9ticas e Nucleares, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>MARQUES, DPA. Monitoramento da inser\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio gen\u00e9tico de <em>Biomphalaria tenagophila<\/em> do Taim (RS), linhagem resistente ao <em>Schistosoma mansoni<\/em>, ap\u00f3s a sua introdu\u00e7\u00e3o em uma \u00e1rea end\u00eamica para esquistossomose no Munic\u00edpio de Bananal\/SP, com transmiss\u00e3o mantida por <em>B.<\/em> tenagophila. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado). Programa de P\u00f3s &#8211; Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias da Sa\u00fade do Centro de Pesquisas Ren\u00e9 Rachou, Belo Horizonte, 2012.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ppt2.fiocruz.br\/fioschisto\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2021\/05\/fioschisto-1-mapa-1-1024x389.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-387\" width=\"764\" height=\"290\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Figura 1: <\/strong>Mapa do Brasil com a distribui\u00e7\u00e3o dos moluscos das esp\u00e9cies (A) <em>Biomphalaria glabrata<\/em>, (B) <em>Biomphalaria straminea<\/em> e (C) <em>Biomphalaria tenagophila<\/em>, hospedeiros intermedi\u00e1rios do <em>Schistosoma mansoni<\/em> (CARVALHO et al 2008.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O g\u00eanero Biomphalaria \u2013 moluscos hospedeiros intermedi\u00e1rios Amanda Santos \u2013 estudante de biologia Os primeiros pesquisadores que estudaram a evolu\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31],"tags":[],"class_list":["post-68","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-esquistossomose"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioschisto\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioschisto\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioschisto\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioschisto\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioschisto\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioschisto\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioschisto\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioschisto\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ppt.fiocruz.br\/fioschisto\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}