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SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE ENTROPIAS NÃO ADITIVAS:

Uma homenagem a
Constantino Tsallis

Sobre o evento

Significado histórico e científico da entropia de Tsallis

Há pouco mais de três décadas, em 1988, um físico teórico brasileiro propôs uma generalização promissora da entropia de Boltzmann-Gibbs. Naquele momento, poucos antecipariam que essa formulação físico-matemática – expressa como Sq = k(1 - Σi piᵍ)/(q-1), onde q quantifica o grau de não-extensividade em sistemas físicos – se tornaria fundação de um programa de pesquisa robusto capaz de descrever e predizer o comportamento de sistemas dinâmicos dos mais variados domínios científicos. A elegância fundamental dessa formulação reside em sua propriedade de recuperar a entropia clássica no limite q→1, preservando compatibilidade com teoria estabelecida, enquanto fornece descrição adequada para sistemas de comportamento não-linear de entropias não-aditivas, que a mecânica estatística tradicional não consegue capturar: aqueles com correlações de longo alcance, estruturas fractais, dinâmicas não-ergódicas e memória temporal prolongada (TSALLIS, 1988; TSALLIS, 2009).

Três décadas transcorridas de pesquisa revelaram que a abordagem de Tsallis seria de fato visionária. Mais de 7.000 publicações científicas foram geradas, grupos de pesquisa em todos os continentes adotaram sua abordagem, e evidências empíricas acumuladas demonstram a aplicabilidade de entropias não-aditivas em domínios muito diversos: turbulência de fluidos, colisões de partículas de alta energia, sistemas autogravitacionais em astrofísica, dinâmica econômica e, crucialmente, em sistemas biológicos complexos (TSALLIS, 2023). Apesar deste sucesso em múltiplas áreas, a oportunidade de integração mais ampla dos campos permanece em aberto para sua consolidação considerando a fundamentalidade das entropias não-aditivas, como proposto por Tsallis. Pesquisadores em astrofísica estudam distribuições de lei de potência em fenômenos gravitacionais sem comunicação profunda com neurocientistas analisando crises epilépticas, apesar de utilizarem essencialmente o mesmo arcabouço físico-matemático. Debates fundamentais sobre interpretação física do parâmetro q e critérios para identificação de sistemas não-extensivos permanecem parcialmente em aberto, gerando tensão produtiva porém não-sintetizada entre argumentos axiomáticos rigorosos e evidências empíricas robustas na consolidação de entropias não-aditivas.

Veja a matéria que saiu no jornal O Globo

Importância do evento para área e setor


Consolidação Científica e Maturação do Campo

O campo de entropias não-aditivas e sistemas complexos não-extensivos, apesar de seu reconhecimento crescente, ainda não alcançou maturidade científica plena. Quando comparado `a áreas consolidadas, como relatividade geral ou mecânica quântica, faltam coesão teórica integrada e mapas estratégicos que permitam ao pesquisador iniciante compreender o panorama completo, ao aplicador identificar com confiança onde usar ferramentas, e ao financiador estabelecer prioridades baseadas em solidez demonstrada. O Simpósio, ao promover síntese estruturada, identificará explicitamente quais fundamentos estão consolidados versus especulativos, em quais domínios aplicabilidade foi demonstrada rigorosamente versus onde extrapolação permanece conjectural, quais questões fundamentais recebem respostas satisfatórias versus quais permanecem abertas.

Esta clarificação sem precedentes é absolutamente essencial para maturação continuada. Identificará fronteiras de pesquisa prioritárias que poderão influenciar estratégias de agências como CNPq, CAPES, FINEP e instituições internacionais nos próximos anos. Questões fundamentais ainda não resolvidas como a origem dinâmica de q, seleção de q a priori, e papel em gravidade quântica, receberão impulso coordenado. Analogamente, aplicações identificadas como promissoras, mas incipientes poderão receber priorização estruturada em editais futuros.

Impacto para saúde e inovação tecnológica

O foco explícito do simpósio em aplicações para saúde responde `a demanda crítica contemporânea por precisão e com big data. Dados biomédicos produzidos na prática clínica, multi-ômicos, imageamento multimodal, e monitoramento fisiológico contínuo, exigem ferramentas analíticas sofisticadas capazes de capturar estruturas multiescala e correlações de longo alcance. A mecânica estatística não-extensiva oferece um arcabouço rigoroso e computacionalmente tratável para problemas que abordagens convencionais que vêm falhando. Em diagnóstico assistido por computador, algoritmos de segmentação usando a entropia de Tsallis já demonstram superioridade em identificação de lesões tumorais cerebrais (WACHS-LOPES et al., 2020). A nova síntese a ser realizada permitirá documentação sistemática de melhores práticas, disponibilização de código aberto otimizado, e orientações para desenvolvedores. Estimativas conservadoras indicam que sistemas CAD incorporando estas técnicas poderão aumentar sensibilidade diagnóstica em 10-15%, com impacto direto em detecção precoce.

Na neurologia clínica, crises epilépticas podem ser interpretadas como fenômenos críticos descritíveis por estatísticas não-extensivas, fundamentando sistemas de predição (EFTAXIAS et al., 2011). Dispositivos implantáveis poderão monitorar sinais cerebrais entrópicos para detecção de estados pré-ictais, permitindo intervenções preventivas. Para variabilidade de frequência cardíaca, biomarcadores entrópicos demonstram valor prognóstico incremental para eventos cardiovasculares, permitindo refinamento de estratificação de risco (RIBEIRO et al., 2017).

Em medicina personalizada, a caracterização entrópica de redes biológicas pode guiar seleção de terapias e dosagem otimizada. Estudos em oncologia revelam correlação entre índices entrópicos tumorais e resposta a imunoterapia. Em saúde pública, a dinâmica de epidemias pode ser modelada adequadamente por abordagens não-extensivas que capturam eventos raros de alto impacto e distribuições de cauda pesada.

Desenvolvimento científico e tecnológico nacional

O Brasil contribuiu desproporcionalmente para o desenvolvimento de mecânica estatística não-extensiva e entropias não-aditivas. Constantino Tsallis, fundador do campo, um dos cientistas mais citados do Brasil, é pesquisador brasileiro permanente do CBPF; ainda, grupos fortes foram criados em CBPF, USP, UFRGS, UFPE, Unicamp.

A realização do simpósio e seu produto no Rio de Janeiro posiciona o Brasil como polo de referência mundial. Os desdobramentos concretos são múltiplos. Primeiro, na formação de recursos humanos: 15 pesquisadores jovens selecionados competitivamente terão exposição direta a líderes internacionais, criando redes colaborativas que ajudarão a estruturar suas carreiras. Materiais educacionais serão incorporados em programas de pós-graduação, elevando a qualidade da formação. Segundo, visibilidade internacional aumentada atrai investimento privado: startups em health-tech podem emergir organicamente; algoritmos podem ser licenciados; software pode ser desenvolvido como bem público digital de impacto global.

Terceiro, em diplomacia científica, colaborações estabelecidas traduzem-se em projetos de pesquisa conjuntos com financiamento multilateral através de H2020, NIH, NSFC. O Brasil posicionar-se-á em discussões globais de políticas científicas em UNESCO, WHO, OECD, particularmente em saúde digital. O alinhamento com Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI 2021-2031), Plano Estadual do Rio de Janeiro, e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável é inequívoco e estratégico.

Referências

EFTAXIAS, K. et al. Are epileptic seizures quakes of the brain? An approach by means of nonextensive Tsallis statistics. Physica A: Statistical Mechanics and its Applications, v. 390, n. 23-24, p. 4253-4266, 2011.

RIBEIRO, H. V. et al. Characterizing time series via complexity-entropy curves. Physical Review E, v. 95, n. 6, 062106, 2017.

TSALLIS, C. Possible generalization of Boltzmann-Gibbs statistics. Journal of Statistical Physics, v. 52, n. 1-2, p. 479-487, 1988.

TSALLIS, C. Introduction to nonextensive statistical mechanics: approaching a complex world. New York: Springer, 2009.

TSALLIS, C. When may a system be referred to as complex? An entropic perspective. Frontiers in Complex Systems, v. 1, 1284458, 2023.

WACHS-LOPES, G. A. et al. Recent nature-inspired algorithms for medical image segmentation based on Tsallis statistics. Communications in Nonlinear Science and Numerical Simulation, v. 88, 105256, 2020.